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As Consequências da Violência na Infância

          No mundo inteiro, tem crescido o índice de criminalidade praticado por crianças e jovens. Esse número chega a ser assustador. Pensando no porquê destas tragédias, comecei a pesquisar sobre o assunto para tentar achar uma resposta cabível para estes acontecimentos tortuosos que vêm tomando proporções inimagináveis aos nossos olhos. A sociedade parece não dar a devida importância para esta situação, pela facilidade com que ignora e esquece a violência praticada contra as crianças, o que acaba por gerar a violência da criança contra a sociedade.

         Cientistas estudam há algum tempo a possibilidade de que essas mortes praticadas em qualquer fase da vida não se resumam a fatores psicológicos e sociológicos. Eles tendem a atribuí-las a fatores genéticos e biológicos. Estudos realizados com metais, principalmente, cobre, zinco, lítio, cobalto, e resultado de pesquisas com oligoelementos obtiveram-se informações valiosas sobre as causas da doença mental. 

        Sabemos que a violência é resultado de um conjunto de fatores, mas o lado psicológico e sociológico tem grande relevância nestes casos. O sociólogo Glaucio Ary Dillon Soares, professor titular da Universidade da Flórida, há 25 anos dá aulas sobre violência na América Latina. Em entrevista à revista Veja, disse: “a taxa de mortes violentas entre os jovens abaixo de 14 anos nos Estados Unidos é mais alta que as taxas somadas de 25 países industrializados. Não se trata do fato de as crianças americanas serem ou não mais violentas que as outras, mas sim de que os meios para matar à disposição delas são, além de numerosos, mais eficientes. Em 1996, revólveres e pistolas foram usados para matar duas pessoas na Nova Zelândia, quinze no Japão, trinta na Grã-Bretanha, 106 no Canadá, 213 na Alemanha e, pasme, nada menos que 9.390 nos Estados Unidos”.

         Nos Estados Unidos, de 1992 a 1999, houve 14 casos de chacinas nas escolas envolvendo crianças ou jovens que praticaram estes homicídios e deixaram muitos feridos. Dos envolvidos naqueles casos, metade tinha 14 anos ou menos como os garotos Andrew Golden e Mitchell Johnson, que na época tinham respectivamente 11 e 13 anos. Para praticar o crime, as crianças usaram rifles de caça, mataram a professora, quatro colegas e deixaram dez pessoas feridas. 

         Algumas dessas chacinas merecem destaque pelas características, cujas vítimas que eram os próprios pais dos jovens. Em Springfield, Oregon, em maio de 1998, o estudante de 15 anos, Kip Kintel, antes de matar três pessoas e deixar 25 feridas na escola secundária Thurston, assassinou seus pais. O mesmo ocorreu em outubro de 1997, em Pearl, Mississipi; o jovem de 16 anos, Luke Woodham, matou a própria mãe cortando sua garganta, depois seguiu para a escola onde matou sua ex-namorada, um colega e deixou mais sete feridos.

         É provável que essas crianças vivessem em um ambiente favorável e tivessem o incentivo dos pais para utilizar as armas, principalmente para caçar. Observou-se em alguns casos que, enquanto os pais ensinavam os filhos a praticar tiro ao alvo, em sua maioria, escondiam um fator de desagregação familiar. Essa pseudoliberdade familiar proporcionada pelos pais aos filhos tornou-se um problema sem limites.

         Estatísticas do sociólogo revelam que no Brasil a violência trilha o mesmo caminho da dos jovens americanos: “aqui, em 1995, 4.571 crianças e adolescentes morreram com armas de fogo, aproximadamente treze a cada dia. De 1979 a 1995, 44.000 já haviam morrido. Seguindo essa tendência, neste primeiro ano do novo milênio, mais 5.500 jovens morrerão violentamente com armas de fogo”.

         Mas essa violência praticada pelos jovens não se limita ao uso de armas de fogo. O exemplo acima revela o alto índice de mortes com esse objeto, porém há uma infinidade de armas que as crianças ou adolescentes usam para matar.

         Em 1997, na cidade de Brasília, três jovens, na faixa etária de 19 anos, atearam fogo ao índio pataxó Galdino escolhido ao acaso, enquanto dormia no banco de um ponto de ônibus. Aqueles jovens pareciam estar em busca de emoções fortes, e o susto ao índio era adequado, sem avaliar o grau do perigo que envolvia uma ação daquela natureza. Eles pertenciam à classe média alta, com disponibilidade de recursos financeiros para investirem suas energias nos estudos e em trabalhos edificantes, e não acabarem na categoria daqueles que precisam de aventuras violentas para extravasar suas angústias.

Este artigo foi dividido em três partes, devido ao espaço limitado do blog. Logo abaixo segue a continuação.



Escrito por Marco Tulio Michalick às 19h25
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As Consequencias da Violência na Infância - Continuação

         No livro de Joanna de Ângelis, Amor, Imbatível Amor, psicografado por Divaldo Pereira Franco, revela a importância dos pais nesse processo: “na raiz de muitos conflitos e desequilíbrios juvenis, adultos, e até mesmo ressumando na velhice, as distonias tiveram origem – efeito de causa transata – no período da gestação, posteriormente na infância, quando a figura da mãe dominadora e castradora, assim como do pai negligente, indiferente ou violento, frustrou os anseios de liberdade e de felicidade do ser”. Uma boa estrutura familiar é muito importante na educação dos filhos. No entanto, qualquer conflito nessa estrutura pode ser a causa de traumas na infância com conseqüência psíquicas irreversíveis que podem comprometer o futuro.

         Esses conflitos uma vez interligados no Espírito de uma criança e ainda reprimidos podem vir a gerar sentimentos de frustração, melancolia, carência afetiva e enfim uma vida sem objetivos.

         Nesse vazio ocorre a fuga para o mundo das drogas, o álcool e a busca de aventuras radicais e violentas. Agindo desse modo, os jovens demonstram uma profunda indiferença pelo mundo e falta de amor familiar muito grande. Sem referência sólida correm o risco de entrar num processo depressivo, numa busca incessante do prazer sexual, o que aumenta a sua insatisfação ao tomar consciência de não ter amado ou sido amado.

         Para ilustrar essa situação, Joanna de Ângelis descreve o seguinte: “a criança mal amada, que padece violências físicas e psicológicas, vê o mundo e as pessoas através de uma óptica distorcida. As suas imagens estão focadas de maneira incorreta e, como conseqüência, causam-lhe pavor. Ademais, os comportamentos agressivos daqueles que lhe partilham a convivência, atemorizando-a mediante ameaças de punições com seres perversos, animais e castigos de qualquer natureza, fazem-na fugir para lugares e situações vexatórios, nos quais o recolhimento não oferece qualquer mecanismo de defesa, deixando-a abandonada. Essa sensação a acompanhará por largo período, senão por toda a existência, perturbando-lhe a conduta insegura e assinalada por culpas sem sentido, que a levarão a permanente desconsideração por si mesma, pela ausência de auto-estima, por incessantes arrependimentos”.

         Uma infância maltratada pelos pais que usam da violência se reflete na vida adulta representada por traumas e medos diante de situações que lembrem seu passado. Por isto, encontramos adultos com muito ódio, por não terem recebido afeto e carinho dos pais, devido a limitações de suas condições internas e materiais. 

         Sabemos que os maus tratos sofridos na infância ficam registrados nas nossas células e na mente de modo que podem vir a alimentar nossa vontade de vingança diante daquelas pessoas que julgamos nossos algozes.

         Às vezes esses algozes estão próximos, por exemplo, na figura dos pais. Então, a prática da violência contra os pais é a resposta ao desamor sofrido, que no jovem pode chegar à eliminação deles de suas vidas.

         Percebemos que a infância é determinante na formação da personalidade de uma pessoa. Alguns estudos realizados demonstram que fatores psicológicos têm uma participação significativa neste processo.

         A autora em Amor, Imbatível Amor, cita algumas causas como a timidez, inibição e angústia. Do ponto de vista psicológico a timidez é “um relacionamento infantil insatisfatório com a família, particularmente em referência à própria mãe que se apresente castradora ou se torne superprotetora, termina por impedir o desenvolvimento psicológico saudável do indivíduo. (...) escamoteia temperamentos violentos, que não irrompem, produzindo distúrbios externos, porque se detêm represados, transformando-se em cólera surda contra as outras pessoas, às vezes contra si próprio”. Na inibição “quase sempre esse estado mórbido decorre de uma infância infeliz, na qual conviveu com pais autoritários, familiares rebeldes e agressivos, sentindo-se empurrado para o ensimesmamento, face ao receio de ser punido por qualquer coisa acontecida, mesmo quando não a houvesse praticado, assumindo postura de vítima que se esforça para agradar sempre, estar permanentemente bem com todos, sem ser incomodado pelas ocorrências ou pelas criaturas”. A angústia trata-se de uma infância onde “se encontram os fatores que produziram o amargor, quando a rejeição dos pais e familiares conspirou contra o amadurecimento emocional, alardeando pessimismo em torno da criança, que foi brutalizada, desestimulada de promover qualquer reação em favor de si mesma”.

Este artigo foi dividido em três partes, devido ao espaço limitado do blog. Logo abaixo tem a parte final do artigo.



Escrito por Marco Tulio Michalick às 19h22
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As Consequências da Violência na Infância - Parte Final

         Portanto, os pais têm uma responsabilidade muito grande na criação e educação dos filhos e sobre qualquer ato indigno que coloque em perigo o estado psíquico da criança que terá conseqüências para a vida adulta e ainda em outras encarnações. Por isso nos preocupamos com o futuro das crianças maltratadas que são objeto do noticiário dos meios de comunicação, como jornais, revistas e televisão.

         Os pais não devem esquecer que a criança é um Espírito antigo que traz experiências acumuladas de outras reencarnações. Pois essas representam oportunidades para evolução dos filhos e pais. Ignorar a reencarnação como um processo de evolução espiritual pode trazer sérias conseqüências.

         Por toda a parte assistimos cenas que comprovam o estado de ignorância em que vivemos. Recentemente, presenciei, na rua, uma cena em que uma mãe espancava sua filha de aproximadamente cinco anos. Essa mãe, enfurecida, batia com tanta violência e gritava ao mesmo tempo, que a garotinha assustada tentava engolir o choro. É compreensível que a mãe se sinta revoltada com os problemas do cotidiano, mas descarregar sua raiva na criança parece covardia.

         Diante daquela imagem de horror fiquei pasmado, e durante um período aquela lembrança me acompanhou. Então uma indagação me assolou a mente sobre o que pensaria uma criança em face de tanta violência.

         Sabemos das dificuldades tanto profissionais como pessoais que os pais enfrentam no cotidiano, e ainda daquelas com a criação dos filhos, preocupados em querer o melhor para eles. No entanto, esse “melhor” para os pais pode não corresponder à real necessidade e aspiração do filho e então vem a frustração por não ter dado a conduta correta ao pupilo. 

         Por outro lado, a violência sexual praticada contra a criança pelo próprio pai é um dos atos mais animalescos cometido pelo ser humano. O pai na ânsia de satisfazer seu desejo libidinoso vê no filho o objeto capaz de atender à sua necessidade, sem avaliar as conseqüências desse comportamento para a vítima.        Nesta relação, o agressor mantém a vítima em silêncio sobre o assunto.

         Para diminuir a violência, o importante é estabelecer uma relação de amor, afeto e carinho com base no respeito durante a infância o que contribuirá para uma convivência familiar e social saudável. Buscar o ponto de equilíbrio entre dar e receber carinho deve ser a medida para que as crianças cresçam livres e independentes dos pais. Esse é um aprendizado que compreende o resgate de nossos débitos do passado e tem início com a prática da caridade.

         Em Amor, Imbatível, Amor, Joanna de Angelis explica que “essa ocorrência tem lugar com aqueles que se vêm impelidos ao renascimento para reparar pesados compromissos infelizes, retornando ao seio das suas anteriores vítimas que agora os rechaçam, o que é injustificável. (...) O Espírito que, anteriormente, malbaratou a oportunidade de crescimento moral através de ações nefastas, enredou-se em forças vibratórias de grave conteúdo destrutivo, renascendo em lar difícil para o ajustamento efetivo, em clima de desafios de vária ordem para a aprendizagem comportamental, conduzindo a carga de energia necessária ao equilíbrio da personalidade que lhe cabe administrar”.

         O carinho e a dedicação dos pais se constituem na essência e no fundamento para a educação dos filhos e na reconciliação mútua, por meio do cumprimento dos compromissos assumidos no Mundo Espiritual.

         O algoz de hoje pode ter sido nossa vítima em outra vida. Por mais dura que sejam as barreiras, um dia elas cederão espaço para à reconciliação.

         A paciência, como uma virtude de poucos, deve ser desenvolvida e exercida gradativamente na direção da conquista de um amor maior.

 

Por Marco Tulio Michalick

Texto original publicado na Revista Cristã de Espiritismo, edição nº 27, ano 2002, com o título de "Infância Violentada".

 

 



Escrito por Marco Tulio Michalick às 19h17
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Eutanásia

         A palavra eutanásia é de origem grega, formada pela junção dos termos “eu” (bom) e tanathos (morte), então “Boa Morte”. Pode ser entendida como morte serena sem sofrimento; ou uma prática sem amparo legal, pelo qual se busca abreviar, sem dor ou sofrimento, a vida de um doente reconhecidamente incurável.   

         Na realidade é uma ação homicida cometida por um médico ou um leigo (em geral alguém da família), ou legislador que tem o poder de decidir a respeito da sobrevivência do enfermo.

         A prática da eutanásia pode ser: positiva, em que se põe fim à vida do paciente, em geral, pela aplicação de fármacos. Negativa, em que se omitem os meios ordinários indispensáveis para a manutenção da vida. Eugenética, em que se elimina toda vida considerada sem valor; na Grécia antiga, a hegemonia espartana, sempre armada para a guerra e a destruição, inseriu no seu Estatuto o emprego legal desta eutanásia em referência aos enfermos, mutilados, psicopatas considerados inúteis. Involuntária, em que o paciente não é consultado, não se pronuncia ou é incapaz de fazê-lo, ou até mesmo não a deseja. Voluntária, em geral praticada pelo médico a pedido do paciente, considerado suicídio assistido.

         Joanna de Ângelis, no seu livro Após a Tempestade..., psicografado por Divaldo Pereira Franco, descreve da seguinte forma a eutanásia: “Prática nefanda que testemunha a predominância do conceito materialista sobre a vida, que apenas vê a matéria e suas implicações imediatas, em detrimento das realidades espirituais, reflete, também, a soberania do primitivismo animal na constituição emocional do homem”.

         Essa questão é debatida no mundo inteiro. A maioria dos países é contrária à prática da eutanásia, punindo àqueles que agem assim em situação humanitária, mesmo que seja para abreviar o sofrimento indesejado a um enfermo. As religiões, também, se opõem a essa prática, por acreditarem que somente Deus dá a vida e só Ele pode tirar.

         Os que são favoráveis à eutanásia dizem agir em nome do doente em fase terminal, que se caracteriza por apresentar um quadro clínico irreversível, no qual passa por horríveis dores e sofrimentos, parecendo que somente a morte é um meio que pode livrá-lo de seu padecimento.

         O argumento dos utilitaristas é que um paciente em fase terminal custa muito caro para o Estado, e que esse dinheiro poderia ser destinado à cura de pessoas com possibilidades de voltar à vida normal. Então perguntamos: O que é caro para o Estado? Esse argumento, na atualidade, não tem sustentação ao vermos o poder público fazer uso indevido do dinheiro, desviando-o para fins particulares, ou ainda gerando escândalos atrás de escândalos.

         Na sociedade em que vivemos, temos responsabilidade pelos nossos semelhantes. Ao Estado cabe a responsabilidade pela administração do dinheiro público e não aos cidadãos, pela má gestão do recurso público. Pois o mau uso do dinheiro recai sobre as pessoas que pagam com a vida pela prática de atos indignos dos outros. Portanto negar ao doente terminal tratamento digno devido à escassez de recursos em favor de pesquisas para salvar vidas é uma incoerência diante da realidade.

Este artigo foi dividido em três partes, devido ao espaço limitado do blog. Logo abaixo segue a continuação.

 



Escrito por Marco Tulio Michalick às 14h07
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Eutanásia - continuação

          O relato do canadense Mark Pickup, paciente crônico de esclerose múltipla progressiva há 15 anos, em um artigo publicado no National Post, em 1999, na cidade de Toronto, mostra sua preocupação diante da baixa estima que os deficientes têm por parte de seus concidadãos.

         Quando Mark Pickup soube das conseqüências de sua doença, ou seja, que sua visão se debilitaria, suas pernas e braços se atrofiariam, perderia a capacidade de falar, teria incontinência, experimentaria esgotamento contínuo, sofreria períodos em que a capacidade de pensar seria obscurecida e não poderia confiar nas suas opiniões, concluiu que não haveria “qualidade de vida nessa existência, somente terror”. Ele faz um comentário muito importante em seu artigo: “Nos primeiros dias, meses e anos de minha doença, minha família me apoiou. Para eles eu era valioso, inclusive quando eu mesmo duvidava disso. Se não tivessem feito isso, eu poderia ter agradecido a visita de Jack Kevorkian. Se alguém me dissesse que minha carreira terminaria aos 37 anos, eu me desesperaria. De fato, quando chegou o momento, fiquei desesperado. Felizmente, muitos destes sintomas aterrorizantes diminuíram. Agora me movimento com muletas e disponho de um veículo adaptado às minhas necessidades. Não trabalho há nove anos, mas minha vida tem qualidade. Para quê? Para amar, para ser amado, para ser valorizado e acreditar que posso contribuir com algo para a comunidade”.

         A sua história demonstra que ele valoriza a vida e o faz vencendo os obstáculos que lhe são postos no caminho. E assim segue a sua caminhada evolutiva, passando pelos espinhos. Felizmente, esta é uma atitude corajosa, ao passo que abreviar as dores por meio de uma morte digna não contribui para o processo de crescimento espiritual.

         Para ele: “Existe na sociedade uma corrente subterrânea de hostilidade contra a vida humana imperfeita”. E se pergunta: “Com a aceitação da eutanásia, o que o doente incurável ou incapacitado pode esperar?”.

         No Canadá, há uma política de duas medidas, ou seja, uma pessoa que tem tendência suicida recebe toda a ajuda necessária, inclusive tratamento psiquiátrico até que passe a crise. O objetivo é melhorar a auto-estima para viver com dignidade. Porém, quando se trata de um doente incurável ou um deficiente, a discussão é em volta da “morte digna”, “liberdade de escolher a própria morte”. Depois de indagar sobre a razão dessa diferença, Pickup comenta: “Sou valioso tanto quanto a pessoa sadia que deseja suicidar-se, mesmo que não me valorize ou deixe de ser amado pelos outros”.

         Já no Brasil, existem poucos hospitais e associações cujo objetivo é dar o apoio necessário ao doente terminal e ainda a seus familiares a lidar com a morte. Trata-se de um tratamento paliativo onde o paciente recebe ajuda de psicólogos, médicos, enfermeiros e assistentes sociais.

         O comportamento de uma pessoa que recebe a notícia de uma doença fatal é imprevisível. Sabe-se que a primeira coisa que vem a mente é o torpor pela morte. O medo toma conta da pessoa que começa se indagar a Deus. “Por que eu?” A família sofre, mas deve permanecer firme ao lado do enfermo, pois conforme Joanna de Ângelis, no livro citado, “as pessoas que se lhes vinculam na condição de pais, cônjuges, irmãos, amigos, também lhes são partícipes dos dramas e tragédias do passado, responsáveis diretos ou inconscientes, que ora se reabilitam, devendo estender-lhes mãos generosas, auxílio fraterno, pelo menos migalhas de amor”.

Este artigo foi dividido em três partes, devido ao espaço limitado do blog. Logo abaixo tem a parte final do artigo.

 



Escrito por Marco Tulio Michalick às 14h03
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Eutanásia - parte final

        Segundo descreve a psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kubler-Ross, em seu livro Sobre a Morte e o Morrer, os pacientes próximos da desencarnação passam por cinco estágios. A primeira fase é a de negar, não aceitar a idéia de morrer. Passa a ignorar o diagnóstico médico e tentam manter sua vida normal. No segundo estágio, ao se confirmar a doença, passam a ter raiva de Deus e de todos. E vem a pergunta de sempre, “Por que eu?”. Com a revolta passam a ter sentimentos de inveja das pessoas sadias e a reclamar dos familiares que não consideram. A terceira fase é o estágio da barganha, quando passam a fazer promessas a Deus na intenção de obter a cura. Nesta fase seu Espírito está mais tranqüilo e amistoso com os que lhe cercam. No quarto estágio vem a depressão. Muitas vezes, nesta fase, coincide com o agravamento do seu estado de saúde ou a frustração diante de um novo tratamento. O último estágio é o da aceitação. Fisicamente debilitado, o paciente se isola, aceita a idéia do fim e sente remorso pelo que deixou de fazer. Tem a sensação de derrota e impotência. Porém, emocionalmente, está mais saudável. A luta pela vida cessou e deu lugar à resignação.

         Diante dessa realidade é que o médico Jack Kevorkian responde pela morte de 130 pacientes terminais. Em 1989, ele criou a primeira máquina para praticar a morte rápida, a qual batizou com o nome de Tanatron, palavra originária do grego que significa “máquina da morte”. Com ela, são aplicadas doses altíssimas de analgésicos seguidas por fortes dosagens de relaxantes musculares e soluções de potássio que interrompem o funcionamento do sistema cardiorrespiratório. Segundo ele, o processo é indolor. Sua máquina o deixava em posição cômoda, pois eram os pacientes que abriam a válvula para injetar os medicamentos mortais. Em 1998, Kevorkian operou os instrumentos da morte para Thomas Youk, de 52 anos, que sofria de um tipo de esclerose, conhecida como mal de Lou Gehrig. Thomas assinou uma declaração formal dizendo que não queria mais viver. Sua morte foi filmada por Kevorkian e mostrada na rede de tevê norte-americana CBS. Com base nesse vídeo, as autoridades judiciais de Michigan abriram um processo contra Kevorkian, o quinto aberto no país, desde 1990, por homicídio. O “Doutor Morte” foi condenado a uma pena de 25 anos na penitenciária de Pontiac.

         Pesquisa revela que doentes terminais, em sua maioria, admitem a possibilidade da vida após a morte. Outro dado relevante nas pesquisas é que muitas pessoas se sintam culpadas ou com remorso por deixar assunto mal resolvido ou não ter reconciliado.

         Não poderíamos deixar de terminar sem escrever um parágrafo que se encontra em Após a Tempestade..., no qual, Joanna de Ângelis dedica um capítulo ao assunto da eutanásia: “No que tange aos enfermos ditos irrecuperáveis, convém considerar que doenças, ontem detestáveis quanto incuráveis, são hoje capítulo superado pelo triunfo de homens-sacerdotes da Ciência Médica, que a enobrecem pelo contributo que suas vidas oferecem a benefício da Humanidade. Sempre há, pois, possibilidade de amanhã conseguir-se a vitória sobre a enfermidade irreversível de hoje. Diariamente, para esse desiderato, mergulham na carne Espíritos Missionários que se prestam e impulsionam o progresso, realizando descobrimentos e conquistas superiores para a vida, fonte poderosa de esperança e conforto para os que sofrem, em nome do Supremo Pai”. E finaliza o parágrafo: “cada minuto em qualquer vida é, portanto, precioso para o Espírito em resgate abençoado. Quantas resoluções nobres, decisões felizes ou atitudes desditosas ocorrem num relance, de momento?”.

         Temos aqui considerações importantes, que abrem a possibilidade de refletirmos melhor sobre as reais necessidades de aplicação da eutanásia em pacientes terminais e as posteriores implicações desse ato.

 

Por Marco Tulio Michalick 

Texto original publicado na Revista Cristã de Espiritismo, edição nº 20, ano 2003.

 

           



Escrito por Marco Tulio Michalick às 13h48
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